Lenda do Caboclo D`água

A lenda do Lenda do Caboclo D`água conta que ele é um ser descomunal, ou seja, muito, muito grande, criatura de aspecto humano, masculina, aquática, é encontrada no Rio São Francisco, que nasce em Minas Gerais, sobe cortando toda a Bahia, passa por Pernambuco e deságua no oceano Atlântico, na divisa de Sergipe com Alagoas. É muito, muito grande e musculoso, tem a pele da cor do cobre. Movimenta-se rapidamente e está sempre enfezado. Tem cabelos bem pretos e compridos, mora na parte mais funda do leito do rio São Francisco, que é como uma caverna subaquática.
Ataca, puxa para o fundo do rio e engole quem tiver a ousadia de passar em uma canoa ou outra embarcação perto de onde ele mora. Para vence-lo é preciso cravar uma faca no fundo da canoa. O monstro aquático percebe e não ataca, apenas passa a seguir o viajante bem de longe. Só tome o cuidado de não abrir um buraco no fundo da canoa, porque, se ela afundar, você vai acabar sendo agarrado, puxado para o fundo e nunca mais voltará à superfície, ou seja, você vai para o beleléu. Outra tática, mais arriscada, é tentar ser bem simpático. Se o caboclo-d’água gostar de você, fica seu amigo, passa a chamá-lo de compadre ou comadre e pode até ajudar você a pescar. Ou não…

Dizem que numa parte funda, muito funda, mas bem funda mesmo desse santo rio que é o Velho Chico, tem uma caverna onde a aberração chamada de caboclo-d’água passa a maior parte do seu tempo.
É difícil explicar como a natureza moldou essa caverna nas profundezas aquáticas são-franciscanas. Para chegar lá, é preciso mergulhar e nadar até mais fundo que o leito do rio. Nessa parte mais funda tem uma pedra enorme e nela há um buraco.
A pessoa que mergulhou tem que ter muito fôlego para chegar ao leito e continuar nadando mais fundo ainda. Mas o que ela tem que ter de sobra mesmo é coragem, porque a ideia que vem à cabeça de quem olha para aquele buraco na pedra é que dali vai sair um bicho horrível, cheio de dentes, que vai abocanhar quem estiver por perto e estraçalhar, mastigar e encaminhar a pessoa para o beleléu.
Quem revelou para o mundo o que existe depois desse buraco na grande pedra foi um índio chamado Guaripuru, de uma tribo tupinambá, de quem eu vou falar mais adiante.
Guaripuru contou para quem quis ouvir que, ao atravessar o buraco na pedra no fundo do rio, se chega a uma caverna de pedra escura.
Se quem mergulhou e atravessou o buraco ainda tiver fôlego e curiosidade, além de coragem, vai olhar para os lados e acabar vendo que, na parte mais funda da caverna, a água é mais clara. Se a pessoa conseguir segurar a vontade de voltar para a superfície do rio para poder respirar e for até lá, vai descobrir que ali tem outro buraco. Se mais uma vez vencer a falta de ar e o medo de ser abocanhada, estraçalhada, mastigada e engolida e passar por esse outro buraco, a pessoa vai
descobrir que ele é a porta para outra caverna de águas bem claras, iluminadas por uma fonte de luz que vem da parte de cima da caverna.
Então a pessoa que chegou naquela segunda caverna dentro de outra caverna sabe que não vai dar tempo de passar pelo buraco, atravessar a caverna de pedra, sair pelo outro buraco e nadar até a superfície do rio para poder respirar. E o jeito é continuar em frente, ou seja, nadar para cima nessa caverna dentro de outra caverna, em direção à luz.
E não é que, de súbito, a pessoa sai em outra superfície e pode respirar? Já tentei explicar muitas vezes, para mim mesmo, como é que tem esse rio dentro de uma caverna dentro de outra caverna, e nunca consegui. Mas a culpa não é minha, porque eu não estive naquele local e quem contou como é lá dentro e dentro e dentro e fora foi o Guaripuru.
Mas quem lá esteve ultimamente disse que, de vez em quando, ainda tem gente que vai de barco até o meio do rio e se atira de cabeça, com a vontade firme de ir e voltar trazendo pelo menos uma pedrinha de ouro.
As pessoas que ficam na margem assistindo começam a dizer em voz alta o nome das capitais do país, em ordem alfabética, que é um jeito de contar o tempo que o mergulhador está na água. Tem gente que, quando chega a Salvador, já vai cuidar da vida, porque sabe que o mergulhador não vai mais voltar. O resto do povo, quando chega a Teresina, passa a rezar, chorar ou simplesmente comentar, porque fica na cara que o aventureiro foi pro beleléu.
E tinha que ter muita coragem mesmo até para pensar em entrar nas águas daquele pedaço do Velho Chico. Por quê? Porque não dava para contar nos vinte dedos o número de pessoas que haviam visto mais de uma vez aquele monstrengo chamado de caboclo-d’água, vindo das profundezas e boiando na superfície. Às vezes dava a impressão de que ele estava sentado sobre a água, de tão parado que ficava, de tão fácil que era para aquele bicho horrendo ficar lá boiando e boiando e boiando.
Mesmo quem precisava trocar os óculos ou adquirir um par para conseguir enxergar podia ver muito bem a figura em detalhes. Por quê? Porque a natureza daquele coiso era colossal!
Só que a fome de luxo e riqueza faz as gentes perderem o medo e a razão e, nesse caso que estou contando, a vida.
A pessoa que chegou mais perto de repetir a façanha do índio Guaripuru foi uma moça chamada Joaquina Galega, que era de uma família de pai, mãe e dezesseis irmãos, todos batizados com nomes começados por Joaquim ou Joaquina: Joaquim José, Joaquina Alexandra, Joaquim Alibabá, Joaquina Vespas e assim por diante.
Cada um desses Joaquins de mesmo pai e mesma mãe fez coisas extraordinárias na vida, mas esses casos são todos muito compridos e tenho certeza de que o índio Guaripuru já está pra lá de ansioso para que eu conte a história dele. Só que o herói tupinambá vai ter que esperar um bocadinho mais porque eu comecei a contar a quase façanha de Joaquina Galega e agora preciso completar, senão… Pensando bem, o que pode acontecer se isso acontecer? Com certeza nada, mas vamos lá.
Juntou um bolo de gente para ver a Galega se aventurar na busca das pedras de ouro. Só de familiares tinha mais de duzentos e quarenta e nove, porque de irmãos eram dezesseis, quase todos casados e pais de vários filhos, além de tios, primos, avós, bisavós e trisavós, que aquela gente era teimosa e meio preguiçosa com as coisas da vida e relutava bastante tempo antes de resolver se deixar morrer.
Assim que acabou de enumerar as capitais do país, o pessoal começou a cantar, e foi só quando já estavam na sétima canção com refrão que um dos sobrinhos da Joaquina apontou e gritou:
— Olha a tia! A tia tá lá! A tia tá com uma pedra de ouro na mão!
Foi um tal de aplaudir e gritar parabenizando que quem morava ali perto achou que tinham soltado fogos de artifício, de tanto barulho que a gentarada causou. Só que logo depois começaram os berros de aviso:
— Olha, atrás de você!
— Nada mais rápido, minha filha!
— Venha ligeiro pra margem!
— Não olhe pra trás e se apresse!
Os gritos de aviso viraram gritos de horror e, em seguida, gritos e gemidos de lamento, quando o caboclo-d’água alcançou a Galega e mergulhou e sumiu no meio de um esguicho altíssimo, espalhando ondas pra tudo que é lado, levando o corpo já avermelhado de Joaquina para o fundo, depois de abocanhar, estraçalhar, mastigar e encaminhar a moça pro beleléu.
Até o dia em que foi deste mundo, uma das primas jurou que, quando o caboclo-d’água agarrou a Joaquina Galega com os dentes, o braço que estava esticado para exibir o troféu dourado foi arrancado do ombro e, por causa do esguicho que subiu feito fonte de águas dançantes, voou, ficou um tempo parado no ar, ainda segurando a pedra de ouro, e só então caiu e desapareceu no meio de um enorme tchibum.
Bom, mas deixei para contar a parte do índio Guaripuru por último porque é a melhor. Conheci esse membro de uma tribo tupinambá porque… sim. Eu sei que “porque sim” não é uma grande razão, mas é que foi assim à toa que nosso encontro se sucedeu.
Eu estava na beira do rio pensando se ia ficar por ali pra pescar, quando olhei pro lado e levei um susto, porque não tinha percebido a presença do Guaripuru. Ele riu de lado por ter me assustado e aí ficou com a testa franzida e disse:
— Se eu fosse você, não tentava pescar hoje não, que a água está muito agitada.
Então decidi ir pra casa e perguntei se ele já tinha almoçado e ele disse que não, por isso eu convidei o índio pra vir comigo. Ele aceitou e nós fomos e comemos e depois nos sentamos na varanda pra tomar um café, pitar um pito, ver o tempo passar.
Se você pensa que não dá pra ver o tempo passar, é porque não passou tempo suficiente olhando pra nada, pensando em nada, fazendo nada além de respirar e digerir a comida.
Então, enquanto o tempo passava e eu só respirava e digeria, o Guaripuru me contou de quando mergulhou atrás do caboclo-d’água e descobriu a caverna cheia de pedras de ouro. Dessa vez ele não chegou a entrar na caverna do monstrão porque não se interessou pelo ouro todo que lá estava, porque o Guaripuru era um tipo de índio que vive muito bem sem nada desse nosso mundo. Ele não precisava comprar nada, vivia muito bem como todos da tribo dele, que viviam muito bem só com o que caçavam, pescavam, plantavam, colhiam, faziam, fabricavam.
Só que um tempo depois dessa nossa conversa, o Guaripuru foi visitar uma cidade que ficava atrás de uma colina e se encantou com todas as coisas que as pessoas de cara pálida tinham. Ele ficou feliz quando contaram que para ter todas aquelas coisas ele só precisava ter moedas de ouro ou notas de papel que valiam ouro. Afinal, ele sabia onde conseguir um monte de pedras de ouro.
Se o Guaripuru tivesse me contado o que pretendia fazer, eu teria dito pra ele desistir dessa aventura, mas acho que ele não teria me dado ouvidos, porque dizem que uma penca de gente aconselhou nosso amigo índio tupinambá a não ir atrás do tesouro subaquático e mesmo assim ele foi.
O que deve ter acontecido é que, naquela primeira vez, o caboclo-d’água pode ter tido um sentimento de que o índio não se interessou pelo tesouro e por isso deixou meu amigo voltar.
Só que na segunda vez que o Guaripuru mergulhou no meio daquele pedaço do Velho Chico foi com outra intenção, e foi por isso então que assim que ele sumiu pra dentro da água veio pra fora uma pororoca de bolhas e um enorme esguicho que ficou logo bem vermelho, e quem viu o tchibum imenso que se seguiu viu também o monstro agarrar o Guaripuru com unhas e dentes!
Em poucos segundos ele partiu o herói em vários pedaços, ou seja, abocanhou, estraçalhou, mastigou, mandou pro beleléu e levou o corpo sem vida para o fundo das águas franciscanas, para nunca mais voltar! Fim!

LENDAS FOLCLÓRICAS BRASILEIRAS
ADAPTADAS POR FLAVIO DE SOUZA

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